
26.10.09
hey, that's no way to say goodbye [1]
And instead of saying all of your goodbyes
let them knowYou realize that life goes fast
It's hard to make the good things last
You realize the sun doesn't go down
It's just an illusion caused by the world spinning round
Eu estou deixando meu amigo e não haverá uma despedida especial. Nós nunca fomos dados às coisas especiais. A nossa amizade nasceu velhinha, sem alardes e sem cerimônia, caiu na rotina no primeiro passo e de lá nunca saiu. A nossa adorável monótona rotina. Ela não precisou descer do salto, pois aprendeu a andar com os pés descalços e assim continuou. A máscara não caiu porque nunca existiu - a gente sempre saiu por aí com a cara limpa. Para nossos parâmetros até parece um exagero pensar em uma despedida formal, mas depois de três anos de um convívio tão intenso quanto a “velhice” nos permitia, eu queria saber dizer um adeus bem bonito.
Eu queria dar um abraço mais gostoso, mas todos os nossos abraços são tão cheios de amor que eu não sei como fazer melhor. Vai terminar sendo como uma daquelas nossas noites comuns em que nos divertíamos na multidão durante um tempo, e depois quando cansávamos, ele me deixava em casa, eu o abraçava e voltávamos à vida que incluía mais duas ou três pessoas. E antes dessa noite chegar, vai terminar sendo uma tarde monótona com direito a capuccinos, filmes ou mesmo só duas camas e muita preguiça. Talvez eu saia do quarto ou ele vá sentar em outra mesa, porque a gente se abusa de vez
Manhãs foram poucas, porque meu amigo dorme muito e eu já desisti de acorda-lo; então elas ficaram reservadas para emergências ou para quando eu fazia muito barulho ao me arrumar pra correr. Acredito que haverá uma manhã, pois ir embora é uma emergência. E eu sei que meu amigo vai me ajudar mais uma vez. Mesmo que seja só dizendo um adeus mais bonito que o meu.
15.10.09
does the mind rules the body?
Eu já corri metade uma prova de
Na Meia do Rio uma das coisas que mais emociona é o público; desde os mais humildes que vivem no morro próximo à São Conrado, passando pelos chics do Leblon até os turistas de Copacabana. Todos estão lá no meio fio para torcer, bater palma e gritar palavras de incentivo. Pois foi entre Leblon e Ipanema que eu encontrei o meu “mantra” para o resto da corrida: uma menininha com seus 10, 12 anos com um carioquês carregadíssimo ao me ver passar gritou: vai LinêêÊ !
Abaixo do número de corrida também estava o primeiro nome de cada corredor, mas no meio daquela multidão de gente se torna praticamente impossível que o público se dirija a cada pessoa individualmente. Quando aquela menina falou “Line” e não “Aline” como estava escrito no meu nome de corrida, foi como se ela estivesse falando por todos os meus amigos que, eu sei, estariam lá se pudessem. Toda vez que a coragem faltava, eu lembrava da vozinha dela falando Vai LinêÊÊ... e eu ia e fui, fui até o fim.
8.10.09
Filme mudo
Ainda em Recife, poucas semanas antes de viajar para o Rio, resolvi preparar uma playlist para o meu então abandonado mp3 player. Fazia muito tempo que eu havia perdido o hábito de correr ouvindo música, mas os
Depois de muito penar, consegui fazer uma lista de músicas que tinha desde sambas cariocas (altamente influenciada pelas novelas do Manoel Carlos), hits pessoais como Neighborhood #3, Close to me, I feel it all, Ever fallen in love, até músicas eletrônicas intermináveis só pra manter o ritmo. Fiquei muito satisfeita com minha lista, mas para minha surpresa descobri poucos dias antes da viagem que meu mp3 player tinha morrido. Será que por falta de uso? Troquei o cabo, liguei e desliguei e nada... Lembrei do último treino e me conformei: quem corre
E não é que eu estava certa? E digo mais: ouvir música até atrapalharia. Muita gente corre ouvindo música para se distrair e não ver o tempo passar, e era exatamente esse o meu objetivo quando fiz a minha playlist, mas logo no primeiro km entendi que eu não iria querer nada pra me distrair. Dito e feito, a cada quilômetro eu adorava o diálogo silencioso entre eu e a paisagem carioca. Talvez Jon Brion fosse capaz de fazer uma bela trilha para essa história de amor, mas definitivamente nenhuma das músicas que eu selecionei se encaixaria com aquele momento. Eu não queria me distrair, eu queria estar atenta a tudo; árvores, mar, praia, pessoas, sons... E o tempo passou tão rápido que eu quase falei: mas já?! Como quando os créditos começam a subir e as luzes do cinema se acendem depois de um filme excelente.
24.9.09
Meia do Rio - Parte I
Talvez a corrida não seja assim tão mais solitária do que uma partida de futebol, por exemplo. É só a solidão inerente à vida de cada um, mesmo quando estamos juntos. Na concentração para a largada estava eu no meio das 60 pessoas que foram de Recife até o Rio com o mesmo propósito de correr os 21 km da Meia Maratona. A maioria destas pessoas alugou apartamento em grupos de cinco pessoas [no Leblon, claro!], foram juntas para o “grande dia” e provavelmente correram juntas. Aí vem eu, que fiquei em Copacabana, com alguém que conheci no carnaval desse ano e que não ia correr, mas que tomou aquela cerveja comigo na véspera da corrida para desopilar. Na manhã do “grande dia” era eu sozinha em Copacabana tentando encontrar uma forma de chegar à São Conrado sem gastar rios de dinheiro em táxi, sem chegar atrasada para a largada e sem pegar o ônibus errado.
Acordei cedo, fui tomar café na esquina e encontrei algumas pessoas com cara de quem “vou pra Meia”. Para resolver meu problema, abordei algumas delas com aquele papo “Tu vai como pra São Conrado?” Em vão, todo mundo que estava na padaria já tinha seu táxi com lotação esgotada. Paguei meu café e me dirigi para a estação de metrô para me arriscar no ônibus que disseram ser a melhor opção para chegar ao lugar da largada. Lá vi outras pessoas vestidas com roupas de corrida e resolvi tentar pela ultima vez não me perder sozinha por esse mundo/cidade de meu Deus. Não é isso que a gente vem tentando fazer durante todos esses anos? Tive mais sorte e encontrei um nativo que me garantiu saber como chegar lá; grudei nele e respirei aliviada.
O “meu” nativo seguiu em direção a um ponto de ônibus e de lá pegamos uma van cujo cobrador nos garantiu que nos deixaria a menos de 100 metros da largada. Foi só quando já estávamos sentados que descobrimos que iríamos dar um passeio pela Rocinha antes de chegar ao nosso destino final. Senti uma pontada de satisfação ao saber que a minha história da XIV meia maratona do Rio teria um enredo mais emocionante do que a daqueles que simplesmente desembolsaram uma grana para pagar um táxi tranqüilo. Quem disse que eu quero tranqüilidade? Eu queria era subir um morro, conhecer a favela tão falada e descobrir que ela é um centro urbano como outro qualquer com suas ruas, comércios, casas e bares. Queria era perder um preconceito antes de correr, ver as pessoas saindo em plena luz do dia bêbadas e felizes das suas festas e sorrir feliz também. Depois de subir e descer o morro me despedi do meu nativo e fui para o lugar previamente marcado pelo meu grupo de corrida. A minha parceira de treinos desistiu uma semana antes de participar a corrida, então meu único motivo para estar com aquelas pessoas era ter um registro fotográfico da minha primeira meia maratona. Saí em algumas fotos, me alonguei e fui para a linha da largada.
